Jaadugar: A Witch in Mongolia abre em tom quase sereno: uma cidade persa próspera, uma família de estudiosos generosa, uma menina órfã descobrindo, pela primeira vez, o valor de aprender. Em poucos minutos de trama, tudo isso vira cinzas. A invasão de Tus não funciona apenas como o incidente que dispara a história — é o evento que molda quem Sitara se torna dali em diante, e entender os detalhes por trás dele muda completamente a forma de acompanhar tudo o que vem a seguir.
Como era a vida em Tus antes da tragédia
Em 1213, na cidade persa de Tus, Sitara é uma órfã vendida como escrava e acolhida pela casa de Fatima, um núcleo de estudiosos e cientistas de posição social elevada. No início, ela resiste à própria educação e chega a tentar fugir mais de uma vez, até que Muhammad, filho de Fatima, a convence com paciência do real valor do conhecimento — o tipo de sabedoria capaz de sustentar alguém mesmo nos momentos mais difíceis.
Aos poucos, Sitara se aprofunda em matemática, teologia e literatura, vivendo anos de uma estabilidade que a própria narrativa deixa claro, desde cedo, que não vai durar. O detalhe mais cruel dessa fase inicial é o timing: pouco antes da invasão, justamente Muhammad — o herdeiro da família e a pessoa que mais a incentivou a estudar — parte para a cidade de Nishapur para continuar seus próprios estudos, ficando fora de Tus no exato momento em que tudo desmorona.
Tolui, o Quarto Príncipe por trás do ataque
O exército responsável pela invasão é comandado por Tolui, quarto filho de Genghis Khan. Dentro da hierarquia mongol, ele ocupa uma posição de peso considerável: é reconhecido como “Otchigin” — o “Senhor do Lar” que, por costume mongol, herda diretamente as terras e o legado do pai — e comanda a maior força militar de todo o império, liderando campanhas recorrentes contra cidades do Oriente Médio.
A obra constrói Tolui como uma figura deliberadamente contraditória: alegre e brilhante, rude e corajoso, cruel e implacável, quase infantil em certos momentos. É justamente esse contraste que o torna inquietante como personagem — não é um vilão frio e unidimensional, é alguém capaz de afeto genuíno (a própria trama mostra seus irmãos recebendo-o com carinho depois das conquistas na Pérsia) enquanto comanda massacres com a mesma naturalidade de quem cumpre uma tarefa qualquer.
O motivo por trás do ataque: um livro chamado “Elementos”
Este é o detalhe que dá à tragédia de Tus seu peso mais amargo. Tolui não invade a cidade apenas por expansão territorial — parte do objetivo específico da campanha é confiscar um texto acadêmico chamado “Elementos”, a pedido direto de sua esposa principal, Sorghaghtani Beki, mulher de inteligência reconhecida dentro da própria corte mongol.
Em outras palavras: a destruição de uma cidade inteira, a morte de seus moradores e a escravização dos sobreviventes acontecem, em parte, porque um príncipe queria presentear a esposa com um livro. Quando Sitara descobre esse motivo, sua reação é de indignação genuína — não se trata de uma guerra por sobrevivência ou por ideologia, mas de uma tragédia em escala monumental desencadeada por algo quase banal.
Há ainda uma ironia adicional, quase cruel, escondida nesse detalhe: Tolui nunca planeja de fato como vai ler o material que tanto queria. Nem ele, nem Sorghaghtani compreendem o farsi, idioma em que “Elementos” foi escrito — e os únicos estudiosos capazes de traduzir o texto eram justamente os moradores da própria casa de onde ele arrancou o livro. Ele elimina exatamente as pessoas que poderiam lhe dar a resposta que buscava, sem perceber o próprio erro.
A queda de Tus e o sacrifício de Fatima
Quando os soldados de Tolui chegam, a cidade é incendiada e qualquer resistência é respondida com violência extrema. É nesse caos que Sitara confronta diretamente Tolui, chamando-o de ladrão por levar “Elementos” — um ato de coragem que quase lhe custa a vida. Tolui ordena sua execução, mas Fatima se coloca entre os dois, sacrificando a própria vida para proteger a garota que criou como filha.
Com o último fôlego, Fatima revela que sempre a considerou dessa forma — filha, não apenas protegida —, transformando toda a perda numa ferida pessoal, e não apenas coletiva. É esse momento específico que planta a semente de tudo o que Sitara faz a partir dali.
De Sitara a “Fatima”: como a tragédia constrói uma vingança silenciosa
Levada à força para a Mongólia, Sitara adota o nome “Fatima” — homenagem direta à mulher que morreu por ela — e passa a arquitetar, em silêncio, sua vingança contra o Império Mongol. Anos depois, em meio às disputas de poder que se seguem à morte de Genghis Khan, ela se torna tutora de ninguém menos que Sorghaghtani, a mesma mulher cujo pedido desencadeou a destruição de tudo que ela um dia amou — carregando ressentimento guardado sob a superfície de cada lição que ensina.
Por que esse episódio sustenta toda a série
A queda de Tus não é apenas o evento de origem de Sitara — é o contraste temático que atravessa toda a obra: conhecimento e civilização de um lado, conquista brutal motivada por caprichos triviais do outro. Cada decisão futura de Sitara — assumir o nome de quem morreu em seu lugar, se aproximar deliberadamente do centro de poder que a destruiu, transformar sua própria educação em arma silenciosa — só ganha peso porque a série investe tempo suficiente, logo no início, para mostrar exatamente o que foi perdido, e o quão pouco isso significou para quem causou essa perda.
E você, acha que Sitara vai conseguir se vingar sem se transformar naquilo que odeia? Deixe sua opinião nos comentários.

Seja muito bem-vindo! Eu sou o Leandro, mas no mundo dos animes todo mundo me chama de Leko. Minha história com a cultura pop japonesa começou lá em 2008. Cresci vidrado em clássicos como Dragon Ball e Digimon, e hoje sou o tipo de fã que acompanha cada detalhe e crio minhas próprias teorias.
O Animeleko é um espaço onde eu compartilho minhas próprias teorias e comento sobre a qualidade da animação dos estúdios, falo minha opinião sobre o ritmo dos lançamentos — desde os shonens clássicos até aqueles isekais de culinária bem relaxantes, como Tondemo Skill.
