Tem um detalhe que passa despercebido pela maioria de quem lê Mato Seihei no Slave (também conhecido como Chained Soldier): os nomes usados na obra não são aleatórios. Um grupo de vilões que se autodenomina “deuses”, uma fruta que funciona quase como arma ritual, um monstro com um nome oficial que ninguém repara de tão comum que virou — juntos, esses elementos formam um mapa de pistas que a própria trama nunca conecta diretamente, mas que os fãs vêm decifrando capítulo a capítulo. Neste artigo, vamos analisar essas pistas uma a uma e chegar à teoria que melhor explica de onde Mato realmente veio.
Por que a origem de Mato é (propositalmente) um mistério
Diferente da maioria dos isekais e histórias de portal para outro mundo, Mato Seihei no Slave nunca oferece uma cena de exposição clara sobre a origem da dimensão que dá nome à série. Não existe um cientista explicando o fenômeno, nem um flashback fundacional. A obra trata o surgimento de Mato quase como um dado adquirido — o que é estranho, considerando o quanto a trama se apoia em mitologia japonesa para nomear seus elementos mais importantes.
O que o mangá confirma oficialmente
Antes de entrar nas teorias, vale alinhar os fatos que a própria história já estabeleceu. Décadas antes do início da narrativa, portões começaram a surgir em diversos pontos do Japão, abrindo caminho para uma dimensão paralela batizada de Mato — um território com dimensões próximas às da cidade de Quioto. De dentro desses portões passaram a emergir os Shuuki, criaturas hostis que atacavam sem hesitação qualquer um que cruzasse a fronteira entre os dois mundos.
A resposta da humanidade veio do mesmo lugar da ameaça: dentro de Mato também foram encontrados os chamados Pêssegos, frutas capazes de conceder poderes sobrenaturais exclusivamente a mulheres. Essa descoberta deu origem às Forças de Defesa Antidemônios e reorganizou por completo a hierarquia social do Japão, colocando homens na base da nova pirâmide.
Até aqui, tudo soa como ficção científica de portal interdimensional. É quando se observa os nomes usados pela obra que a coisa muda de figura.
As pistas que a maioria ignora
O nome “Yomi Shuuki” não é só um rótulo
O nome oficial completo das criaturas que habitam Mato é Yomi Shuuki (黄泉醜鬼) — literalmente, “demônios feios do Yomi”. Yomi é o nome da terra dos mortos na mitologia xintoísta, o submundo para onde vão as almas depois da morte. Isso não é uma coincidência estética: é a obra dizendo, sem dizer diretamente, de onde essas criaturas vêm na tradição que inspira a história.
O grupo que se autoproclama “deuses do trovão”
O Hachiraishin (八雷神), cúpula que comanda os Shuuki de dentro da história, carrega o nome dos Yakusa-no-ikazuchi-no-kami — os Oito Deuses do Trovão da mitologia japonesa. No Kojiki e no Nihongi, esses oito kami são descritos rastejando pelo corpo em decomposição da deusa Izanami, guardando-a dentro do próprio Yomi depois que ela morre ao dar à luz o deus do fogo.
Os pêssegos como arma mítica, não como fruta mágica genérica
Aqui está talvez a pista mais reveladora de todas. No mito original, quando Izanagi desce ao Yomi para tentar resgatar sua esposa Izanami e se depara com os oito deuses do trovão guardando o corpo dela, ele os afasta arremessando pêssegos — o fruto que, na tradição japonesa, tem propriedade de repelir espíritos malignos. Na obra, os Pêssegos de Mato são justamente o item que dá às mulheres poder para enfrentar os Shuuki. A ficção reaproveita, quase sem disfarce, a mesma arma do mito original contra os mesmos deuses do mito original.
A teoria central: Mato é uma versão ficcional do Yomi
Juntando essas três pistas, a teoria mais sustentada pelos fãs é direta: Mato não é uma dimensão nova criada pela obra, mas uma reinterpretação do próprio Yomi mitológico — o submundo dos mortos do Xintoísmo, reaberto ao mundo dos vivos através dos portões.
A favor dessa leitura:
- O nome oficial dos Shuuki cita Yomi diretamente, sem margem para outra interpretação;
- O nome do grupo antagonista central corresponde exatamente aos deuses guardiões de Yomi na mitologia;
- O item que sustenta toda a resistência humana (os pêssegos) é a mesma arma usada no mito contra os mesmos deuses.
Contra essa leitura:
- A obra nunca afirma isso de forma explícita — tudo é construído por meio de nomes e referências, nunca por uma cena de confirmação direta;
- Mato é tratado narrativamente como um fenômeno com regras mais próximas de ficção científica (portões, dimensão, expansão territorial) do que de cosmologia religiosa;
- É possível que Takahiro e Yohei Takemura estejam usando a mitologia apenas como inspiração estética, sem necessariamente tornar Mato literalmente o Yomi dentro da lógica interna da história.
A “Mãe” escondida atrás de tudo
Se o Hachiraishin realmente representa os guardiões de Izanami, falta identificar a própria deusa dentro da trama — e é aqui que entra um dos mistérios mais discutidos pelos fãs. No capítulo 86, Taikyoku, uma das líderes do Hachiraishin, menciona uma figura chamada apenas de “Mãe”. Em capítulos mais recentes, a própria Taikyoku chega a dizer que essa “Mãe” não pode fazer nada em seu estado atual, deixando decisões nas mãos dos próprios deuses do trovão — uma frase que sugere uma entidade poderosa, mas incapacitada ou adormecida.
Se essa “Mãe” for, de fato, uma versão de Izanami dentro da ficção, a motivação real por trás dos Hachiraishin deixa de ser pura destruição gratuita e passa a fazer sentido dentro de uma lógica mítica: eles não seriam apenas monstros atacando a humanidade, mas guardiões cumprindo uma função — proteger e, talvez, restaurar o poder de uma divindade adormecida no submundo.
Uma peça que conecta o mito ao presente: Aoba Wakura
Vale relacionar essa teoria a um dos personagens mais ambíguos da série. Aoba Wakura, irmã do protagonista Yuuki e um dos poucos Shuuki com aparência humanoide plenamente desenvolvida na trama, ocupa justamente o espaço de fronteira entre o mundo humano e o submundo de Mato. Se a teoria do Yomi estiver correta, personagens híbridos como Aoba não são apenas uma anomalia biológica — são, narrativamente, a prova de que a fronteira entre os dois mundos (o dos vivos e o de Yomi) está se tornando cada vez mais porosa.
Detalhes que quase ninguém percebe na primeira leitura
- O tamanho estimado de Mato é comparado ao de Quioto — antiga capital imperial e um dos centros religiosos mais importantes do Japão, o que reforça a escolha do local como algo simbólico, não aleatório;
- Cada um dos oito integrantes do Hachiraishin carrega características associadas a aspectos distintos do trovão na mitologia original, algo que a obra reproduz de forma discreta em seus poderes individuais;
- O nome “Mato” (魔都) significa literalmente “capital demoníaca” — um eco direto do papel de Yomi como capital do submundo dos mortos.
Minha teoria pessoal
Na minha leitura, o mais provável é que a obra realmente pretenda que Mato seja uma manifestação do Yomi mitológico — mas de forma gradual e ainda incompleta dentro da própria história. Os nomes e símbolos são pistas explícitas demais para serem apenas estética, mas o ritmo lento com que a trama revela informações sobre a “Mãe” sugere que essa confirmação está sendo guardada propositalmente para um momento mais avançado do enredo, provavelmente ligado ao arco final envolvendo o Hachiraishin.
Se essa teoria estiver certa, o que isso muda?
Confirmar Mato como uma versão do Yomi mudaria o tom central da obra: o conflito deixaria de ser “humanidade contra monstros de uma dimensão desconhecida” e passaria a ser, literalmente, uma guerra entre o mundo dos vivos e o submundo dos mortos. Isso também elevaria o papel de personagens híbridos como Aoba, que passariam a representar não uma exceção isolada, mas o primeiro sinal visível de que a barreira entre os dois planos está deixando de existir.
Conclusão
A origem de Mato talvez nunca seja explicada com uma cena direta e definitiva — e é bem possível que isso seja proposital. Entre nomes emprestados da mitologia, uma fruta que reproduz literalmente uma arma mítica e uma “Mãe” ainda envolta em mistério, as peças já disponíveis apontam fortemente para uma raiz xintoísta por trás de tudo o que acontece na série.
E você, acha que a “Mãe” mencionada por Taikyoku é realmente uma versão de Izanami? Deixe sua teoria nos comentários.

Seja muito bem-vindo! Eu sou o Leandro, mas no mundo dos animes todo mundo me chama de Leko. Minha história com a cultura pop japonesa começou lá em 2008. Cresci vidrado em clássicos como Dragon Ball e Digimon, e hoje sou o tipo de fã que acompanha cada detalhe e crio minhas próprias teorias.
O Animeleko é um espaço onde eu compartilho minhas próprias teorias e comento sobre a qualidade da animação dos estúdios, falo minha opinião sobre o ritmo dos lançamentos — desde os shonens clássicos até aqueles isekais de culinária bem relaxantes, como Tondemo Skill.
