Já mostramos por que Allen escolheu o Modo Infernal e o tamanho do desafio que essa escolha trouxe. Mas existe uma segunda decisão, tomada no mesmo instante, que pesa tanto quanto a dificuldade em si: a escolha da classe. E o Invocador guarda uma contradição que resume boa parte do que torna Hell Mode interessante.
Por que Allen escolheu essa classe?
Dentro do jogo misterioso que Kenichi encontra, o Invocador aparece como uma classe recém-lançada, cercada por um discurso claro: potencial imenso, mas crescimento absurdamente lento. Pra qualquer jogador casual, essa combinação seria motivo suficiente pra evitar a classe — exige paciência demais pra um retorno que só aparece muito depois. Pra Kenichi, veterano de anos tentando encontrar exatamente esse tipo de desafio de longo prazo, é o oposto: um convite direto ao tipo de investimento que ele já buscava havia tempo.
Era considerada uma classe fraca?
Aqui está a contradição central: oficialmente, não. Dentro do sistema de avaliação do próprio jogo, o Invocador é classificado como uma classe de 8 estrelas — a nota mais alta possível, reservada pras profissões consideradas mais fortes do universo da obra.
Na prática, porém, ela é tratada como se fosse a mais fraca de todas — e por um motivo bem específico: a magia de avaliação usada no mundo pra medir o “Talento” de qualquer pessoa simplesmente não consegue detectar a classe de Invocador. Isso significa que, aos olhos de qualquer morador desse mundo (incluindo a própria família de Allen), ele é avaliado como alguém sem talento nenhum — um “zero” absoluto no sistema, mesmo carregando, sem que ninguém saiba, uma das classes mais poderosas que existem.
A ironia central do Invocador: é, ao mesmo tempo, a classe mais bem avaliada nos bastidores do próprio jogo e a mais desprezada por qualquer pessoa dentro do mundo — porque ninguém, nem o sistema mágico local, consegue enxergar o que ela realmente é.
Quais vantagens ela possui?
A principal vantagem, além do potencial de crescimento sem teto definido, é justamente essa invisibilidade: por não ser detectável pela magia de avaliação, Allen cresce sem levantar suspeita, sem virar alvo, sem atrair a atenção que normalmente recairia sobre alguém com poder real. Some a isso a possibilidade de formar um verdadeiro exército de invocações próprias — criaturas que ele pode treinar, nomear e tratar como extensões de si mesmo, multiplicando sua capacidade de combate e suporte muito além do que uma classe convencional de combate corpo a corpo permitiria.
Quais limitações existem?
A limitação mais óbvia já está embutida na própria fama da classe: o crescimento é dolorosamente lento, exigindo quantidades de experiência muito acima do padrão comum só pra avançar um único nível. Isso obriga Allen a um regime de treinamento praticamente incessante desde muito cedo — o tipo de rotina que a maioria das pessoas abandonaria rapidamente por falta de resultado visível.
E existe uma limitação ainda mais dura: preparo e planejamento não garantem vitória. Num dos confrontos mais marcantes da obra, contra o Rei Demônio, Allen e seu grupo são dominados e sofrem uma derrota esmagadora, mesmo depois de toda a preparação estratégica que caracteriza o protagonista. É um lembrete de que o “balanceamento de lixo” do próprio título da obra não é força de expressão — o mundo de Hell Mode realmente pune com dureza, mesmo quem joga certo.
Como Allen ficou tão forte?
Seu crescimento depende apenas de talento?
Não — e essa é praticamente a base de tudo. Allen é, oficialmente, classificado como alguém sem talento algum. Cada avanço que ele conquista vem de esforço acumulado, não de um dom natural reconhecido pelo próprio mundo em que vive.
O treinamento faz diferença?
Decisiva. Allen passa os primeiros oito anos de vida treinando em segredo, começando por algo tão modesto quanto caçar pragas de jardim pra ganhar experiência, evoluindo depois pra caçadas mais sérias contra monstros selvagens. Por volta da pré-adolescência, já havia superado a capacidade de combate dos próprios cavaleiros adultos da vila — resultado direto de uma ética de trabalho que a obra descreve quase como obsessiva: repetir tarefas por anos, sem reclamar, só pelo ganho mínimo de atributo que cada repetição garante.
Como funciona seu sistema de experiência?
Allen trata o próprio mundo como um jogo genuíno de otimização. Ele documenta descobertas num grimório pessoal, testa mecânicas de suas habilidades por horas a fio, e calcula racionalmente qual é a forma mais eficiente de vencer cada desafio — seja limpar uma masmorra, seja derrotar um chefe específico. É esse comportamento analítico, quase matemático, que faz dele parecer excêntrico aos olhos de quem o cerca, sem entender por que alguém passaria o “tempo livre” caçando milhares de insetos de baixo nível de propósito.
O papel da estratégia em suas vitórias
Estratégia é, sem exagero, o núcleo de tudo que Allen faz. Ele encara o mundo como algo que deveria, em teoria, ser “zerável” como um jogo — e segue buscando ativamente atalhos legítimos, brechas de sistema e caminhos de crescimento que outros nem cogitariam procurar. Isso inclui a forma como lidera o próprio grupo: Allen é descrito como um líder natural que inspira pelo exemplo, sempre optando por enfrentar o caminho mais difícil pessoalmente pra que os aliados possam crescer com mais segurança ao lado dele.
Mesmo com a derrota diante do Rei Demônio provando que estratégia sozinha não resolve tudo, é justamente essa mentalidade — analítica, obstinada, disposta a tratar cada detalhe como dado relevante — que transforma uma classe oficialmente subestimada por todo mundo ao redor dele na ferramenta que sustenta cada vitória real que Allen conquista.
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